«É mais difícil descrever a realidade do que a ficção. A ficção tem que fazer sentido»
14 de novembro de 2008
"E se Obama fosse Africano?"
23 de outubro de 2008
Em concretização do postal anterior, justificando a preguiça, aproveitando para responder aos comentário e arranjando maneira de colocar novo posta...
A falta de paciência para alguma coisa, prendia-se com a enorme quantidade de preguiça que sentia naquele momento, preguiça que ao longo do dia foi acumulando juros, dificultando o levantamento ou despertar de qualquer vontade.
E para que não me julguem um inútil preguiçoso... Preguiça motivada não só pelo tempo cinzento que se fazia sentir e humidade que teimava em impregnar o ar, mas também pela calma transmitida pela paisagem e pelo horizonte e pelo próprio mar, que estava sereno e as ondas batiam despreocupada e descuidadamente nas rochas, deixando sair um quase inaudível murmúrio.
Cenário que dificultava (acreditem que muito) a árdua tarefa de ter de me levantar da esplanada onde me encontrava e deslocar-me ao escritório para terminar o que de véspera ficara por despachar.
Escusado será dizer que, o que faltava fazer só foi feito na segunda seguinte.
18 de outubro de 2008
10 de setembro de 2008
Maus tratos e prisão preventiva
Será, mesmo, necessária uma alteração legislativa para tornar o crime de Maus Tratos, em algo semelhante aos "crimes incaucionáveis" (aqueles em que a aplicação da prisão preventiva era obrigatória)?
Na minha modesta e ignorante opinião, e porque a vergonha é muito pouca, parece-me duas coisas:
Primeira: que tornar a prisão preventiva obrigatória para os crimes de maus tratos ou qualquer outro que seja, será, no mínimo, inconstitucional.
Segunda: que não é necessária uma alteração da lei em vigor para se poermitir a aplicação da prisão preventiva aos crimes de maus tratos e de violência doméstica, mesmo nas suas formas mais simples. E por algumas ordens de razões que tentarei, mostrar:
1.º- Os crimes de maus tratos e de violência doméstica são punidos, na sua forma mais simples (ou menos grave se se preferir) por uma pena de prisão que vai de um a cinco anos, é o que nos dizem os artigos 152.º, 1 e 152.º - A, 1, do Código Penal (na sua versão mais actual), respectivamente.
2.º- Como se sabe, mercê da nova alteração do Código Processo Penal, a prisão preventiva só poderá ser aplicada quando (artigo 202.º, 1 do Código Processo Penal, também na sua versão mais actual):
"a) Houver fortes indícios da prática de um crime punível com pena de prisão de máximo superior a 5 anos;" (alínea a) do mesmo artigo e número)
OU
"b) Houver fortes indícios da prática de um crime de terrorismo, criminalidade violenta ou altamente organizada punível com pena de prisão de máximo superior a 3 anos." (alínea b) do artigo citado).
O que para aqui nos interessa é, precisamente, a criminalidade violenta.
3.º- O Código Processo Penal faz a concretização deste conceito, logo no seu artigo inicial, referindo que "para efeitos do disposto no presente Código [de Processo Penal] considera-se (...) «criminalidade violenta» as condutas que dolosamente se dirijam contra a vida, a integridade física ou a liberdade das pessoas e forem puníveis com pena de prisão de máximo igual ou superior a 5 anos." [artigo 1.º, alínea j)]
4.º- Tanto o crime de maus tratos, como o de violência doméstica, quer pela sua descrição típica, quer pela sua inserção sistemática no Código Penal, são crimes contra as pessoas, isto é, crimes que procuram tutelar o bem jurídico (constitucionalmente consagrado) da integridade pessoal (artigo 25.º da Constituição da República Portuguesa - «A integridade moral e física das pessoas é inviolável»), em todas as suas abrangências, moral, psíquica e física.
Conclusão:
Parece-me, pois, que o que se necessita nesta matéria, não é uma alteração da lei, mas antes uma leitura e interpretação da lei, que nem precisam de ser, uma e outra, muito atentas ou exigem grande esforço mental. A solução (se é que andam à procura de uma) está onde o legislador a deixou, na Lei.
Aconselha-se, por isso, o legislador a estudar um pouco o que faz e o que outros fizeram, antes de se por para aí a alterar as leis como se não houvesse amanhã.
É que já chega de trapalhadas e de leis que, antes de entrarem em vigor, já foram alteradas não sei quantas vezes (exemplo recente o Regulamento das Custas Judiciais), sob pena de, qualquer dia, a ignorância da Lei passar a ser uma causa de justificação para o seu não acatamento ou cumprimento.
20 de agosto de 2008
Os filhos pródigos
Ainda, o "meu" país...
18 de agosto de 2008
O “meu“ país
7 de agosto de 2008
Queixinhas #2
Outro tanto acusou!
Mas, no final, pouco disse...
Tanto assim foi que o inquérito às suas declarações sobre corrupção no Estado, foi arquivado pelo Ministério Público por, ao que parece, "por não ter sido possível obter junto de Marinho Pinto informações para identificar casos ilícitos de natureza criminal".
Não sou eu que o digo!, mas tinha ouvido falar... na TSF (aqui).
2 de agosto de 2008
30 de julho de 2008
Queixinhas...
Infelizmente o espírito crítico do Senhor Bastonário é destrutivo, não construtivo.
11 de julho de 2008
26 de junho de 2008
25 de junho de 2008
"África Minha"
Ainda há lugares assim....
20 de abril de 2008
La Ciudad de los Malditos
19 de abril de 2008
"O Juiz vai nu..."
18 de janeiro de 2008
Políticas para a (in)Justiça
Transcrevo, aqui, um comunicado da Associação Nacional dos Jovens Advogados (ANJAP), com o qual não posso deixar de concordar por completo e que tem por objecto a Portaria n.º 10/2008, de 3 de Janeiro, que veio regulamentar nova lei do apoio judiciário (ou se preferirem, o regime de acesso ao direito e aos tribunais), aprovada pela Lei 34/2004m de 29 de Julho, recentemente alterada pela Lei 47/2007 de 28 de Agosto. Portaria esta que vem estabelecer os honorários devidos aos Advogados pela sua participação no regime do apoio judiciário. Não deixa de ser, a portaria, o reflexo do que o que o actual Governo pensa dos Advogados, da actividade que desenvolvem, da qualidade do seu trabalho e do que entende que os mesmos devem receber como compensação pela sua actividade. E assim, o que o Estado vem propor aos advogados é uma avença para patrocínio dos que não têm posses, no valor de 340,00 €uros mensais por cada 50 processos. E por cada caso resolvido 50,00 €uros, se for pela via judicial, e 100,00 €uros, se não for preciso a realização de julgamento. Estes são os valores mais altos, já que se o número de processos for inferior, a avença, será de valor menor. As despesas, estão incluídas na avença.
Não posso deixar de ser, veemente, contra esta nova medida. Em grande medida pelo que fica exposto no comunicado da ANJAP. Mas essencialmente porque considero que o regime do apoio judiciário está mal pensado desde a base. E estas medidas não visam acautelar o que quer que seja. Nem o recurso à justiça (a uma boa justiça, a uma boa defesa) pelos mais desfavorecidos. Função que compete ao Estado e só a ele. Nem a justa compensação dos profissionais que dedicam e canalizam o seu tempo para o desempenho de funções alheias, muitas vezes com eventual prejuízo para a sua própria actividade.
Creio que a solução, a melhor solução, passaria pela criação de uma figura do defensor público, ou gabinetes de defensores públicos. Alguém que, em regime de exclusividade se dedicasse a assegurar a defesa de quem, hoje, recorre ao regime do apoio judiciário. Gabinetes que poderiam ser ocupados por advogados, em regime de exclusividade, um pouco à laia dos solicitadores de execução. São solicitadores, inscritos na Câmara dos Solicitadores, mas só podem tratar das execuções. O mesmo se passaria com os defensores públicos, seriam advogados, inscritos na Ordem dos Advogados, mas que se dedicassem em exclusivo a essa actividade, e remunerados pelo Estado.
Como referi, é ao Estado, e só a ele que compete assegurar o acesso ao direito e á justiça de toda a população. Não pode o Estado livrar-se desse encargo, impondo-o a outros, e, ainda por cima, não lhes pagando a justa compensação. Porque das duas uma, ou o Estado paga mal, porque os advogados fazem um mau trabalho, e neste caso então a função de acesso ao direito e á justiça não está a ser cumprida. Ou o Estado entende que essa função é bem desenvolvida pelo Advogados e é exigível que a remuneração seja justa e equivalente ao trabalho desenvolvido. É que não nos podemos esquecer que um advogado vive dos clientes que vai conseguindo angariar para o seu escritório. E muitas vezes, o patrocínio judiciário vem ocupar espaço e tempo que deixa de estar à disposição dos clientes que vai angariando. É o tempo que o Advogado passa fora do escritório num julgamento no âmbito do patrocínio judiciário em que pode estar a perder potenciais clientes, é o tempo que deixa de dedicar ao estudo de assuntos de clientes. São tudo custos que o patrocínio oficioso não contempla, mas que se for um cliente normal, esses custos estão contemplados (ou podem ser) nos honorários a cobrar.
Esta portaria é uma afronta, do meu ponto de vista, ao Advogados e à função que lhes está, na estrutura social e judiciária, atribuída. Há péssimos profissionais forense? Claro que há, uns que até nem deviam intitular-se Advogados, mas isso não é diferente dos que se passa com os Juízes, os Magistrados do Ministério Público, os Funcionários Judiciais, os deputados, etc..
Eu, enquanto profissional do foro, sinto-me vexado com esta portaria. Entendo ser um total desrespeito à minha função e ao trabalho que tenho vindo a desenvolver, e nessa medida vou aderir ao protesto proposto pela ANJAP, quanto mais não seja porque já vivi e sofri de perto as situações e agruras que são descritas no texto.
Segue, o texto do comunicado.
COMUNICADO DA DIRECÇÃO REGIONAL DOS AÇORES DA
ANJAP – ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE JOVENS ADVOGADOS PORTUGUESES
A Portaria que agora procede à regulamentação da Lei do Apoio Judiciário que entrou em vigor no passado dia 1 de Janeiro de 2008, não obstante só ter sido objecto de publicação em Diário da República no dia 3 de Janeiro do mesmo ano, consubstancia um dos maiores atentados ao direito, que todos os cidadãos têm, de aceder à Justiça e aos Tribunais, independentemente das suas condições económicas.
A legislação aprovada não corresponde aos anseios dos jovens advogados nem às premissas de um verdadeiro Estado de Direito Democrático. Mais uma vez, no que à Justiça diz respeito, fica adiado o Portugal solidário, moderno e civilizado.
Aliado ao aumento das custas judiciais que veio prejudicar o livre acesso à Justiça a milhares de cidadãos e de pequenas empresas, esta tentativa cega e desastrada de resolver a falta de rigor e critério que caracterizam as actuais decisões da Segurança Social para quem merece, ou não, o benefício de apoio judiciário, vem marcar de forma original o sistema judicial português, dividindo a Justiça em três patamares: a Justiça dos miseráveis, gratuita, a Justiça dos ricos, acessível, e a Justiça de uma imensa classe média, difícil, impossível em alguns casos, desmotivante na maioria e injusta.
Há muito que a Associação Nacional dos Jovens Advogados Portugueses vem pedindo uma nova Lei do Apoio Judiciário, justa na concessão do benefício, equilibrada face às características sociais e económicas do nosso país e com as regras e procedimentos que permitam o pagamento dignificante e atempado dos serviços prestados por advogados e advogados-estagiários nesse âmbito.
A ANJAP/Açores rejeita frontalmente as soluções preconizadas pela nova Portaria que atacam os princípios constitucionais de acesso ao direito por parte do cidadão. Como agravante, quase que por capricho, a nova Portaria vem ainda determinar uma redução substancial dos honorários a pagar pelos serviços prestados pelos respectivos advogados, pondo em causa um patrocínio dignificante e eficaz (pode chegar, imagine-se, aos € 6,40 e aos € 50 por processo).
Mais, entende agora a nova Portaria a inclusão no valor desses honorários das despesas efectuadas pelos advogados, o que, sendo inaceitável como princípio, se torna mais grave face ao valor irrisório proposto.
Para além do mais, a metodologia agora adoptada em nada se coaduna com as características geográficas e específicas do Arquipélago dos Açores, pelo que o preenchimento de «lotes de processos» por cada advogado nunca será viável e praticável, com excepção das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, pelo que, e por maioria de razão, o apoio judiciário corre risco de paralisar na Região Autónoma dos Açores, pondo em causa o acesso ao direito por parte de milhares de cidadãos.
A portaria viola a Lei 15/2005, de 26.01.2005 (o nosso Estatuto), nomeadamente o disposto no artigo 100.º, nºs 1 e 3, que prevê uma compensação económica adequada pelos serviços efectivamenteprestados pelo advogado a qual deve ter em linha de consideração a importância desses serviços, a dificuldade e urgência do assunto, grau de criatividade intelectual da prestação, resultado obtido, tempo gasto, responsabilidades assumidas e demais usos profissionais.
A Justiça em Portugal tem cada vez menos vergonha de ser devedora de milhões de euros a Advogados, Magistrados, Funcionários, Solicitadores e Peritos. A Justiça em Portugal ganhou o gosto ao escândalo, à vertigem mediática e tem olvidado à comunidade que deve servir.
Neste seguimento, e uma vez que o preenchimento dos lotes de processos referentes ao patrocínio oficioso depende da livre iniciativa dos advogados, concorrendo aos lotes de processos correspondentes, defendemos que todos os colegas devem abster-se de aceder aos mesmos, impossibilitando o Conselho Distrital dos Açores da Ordem dos Advogados de proceder às respectivas nomeações.
Acresce ainda que, em reunião mantida no passado dia 16.01 no Ministério da Justiça, foi clara e objectivamente referido aos representantes da ANJAP que a nova Portaria que regulamenta a Lei do Apoio Judiciário é, de facto, um erro no que se refere à sua aplicabilidade na Região Autónoma dos Açores, atendendo às especificidades geográficas inerentes.
A ANJAP/Açores não esquece o seu papel de intervenção e alerta e não desiste da construção de uma Justiça melhor para Portugal e para os Portugueses.
O Presidente da Direcção Regional dos Açores,
Francisco Abreu dos Santos
15 de novembro de 2007
11 de novembro de 2007
Realmente, basta um pequeno gesto...
Não creio que a distância, o afastamento, seja motivo suficiente para motivar ou justificar a falta para que com eles temos ou mantemos.
E, realmente, a maior alegria que lhes podemos dar é, precisamente, mostrar, de vez em quando, que estamos lá, que não nos esquecemos, que nos lembramos lá, ou simplesmente, fazer uma visita, aparecer, perder duas horas do nosso tempo para fazer lhes fazer um pouco de companhia. Para nós, são apenas duas horas o tempo que dura um filme.
É um pequeno gesto. Sem aparente grande significado, pelo menos para nós. Mas de impressionante efeito para quem é visitado, para quem nos sente próximos. Para quem, no termo de uma vida, a única coisa que procura é o conforto daqueles de quem gosta, de quem ama. Sentir a sua presença, sentir o seu conforto, o seu carinho, o calor que só a família sabe dar... enfim, sentir-se em casa.
São duas horas de conversa jogada fora, ou apenas dois minutos para dizer olá, não estás sozinho, estamos contigo... pouco tempo, mas uma grande alegria...
Ver o sorriso, ouvir a sua gargalhada... fazê-lo sorrir, que seja apenas uma vez, mais uma vez, um sorriso com vontade, de quem se sente o calor, de quem sente a nossa presença, de quem se sente tocado pela nossa presença, tornam esse pequeno tempo numa eternidade, num momento eterno, que nos aquece o coração, que nos transporta de novo a casa, a um momento terno da nossa infância, aos tempos de criança, ao conforto e calor que sentíamos com a sua presença, com o seu abraço.
Vem isto à baila de uma recente visita a um familiar que, apesar de muito chegado, circunstâncias da vida nos afastaram. Ver o seu sorriso, ouvir sua gargalhada, sentida, com vontade, sentir a alegria que transmitia por me ver ali, sentir a minha presença, transportou-me para momentos da infância onde sentia a sua protecção, o seu conforto, o seu calor.
Transportou-me para as histórias que me contava para adormecer, as sopas de pão com leite e açúcar, ás idas para a praia na traseira do seu Mini castanho, das batatas fritas pala-pala, ou dos sugos de fruta... de tantas outras memórias, que iam surgindo em catadupa...
Apesar de o ver muito debilitado e cansado, também da vida, soube-me bem poder retribuir-lhe um pouco do que em criança me deu, me fez sentir, me dedicou. A dívida, nunca poderá ser paga ou retribuída, o crédito que tem sobre mim é bem maior do que alguma vez lhe poderei retribuir. Mas tenho a certeza de que nunca ma virá cobrar.
E de facto, dar uma pequena alegria a quem sempre esteve lá, presente... realmente, não custa mesmo nada, e basta um pequeno gesto.
Obrigado, avô!
12 de outubro de 2007
29 de setembro de 2007
Em branco... e preto...
Ainda não é desta que aceito o repto lançado...
11 de setembro de 2007
19 de julho de 2007
Ainda sobre o postal anterior
Uma verdade
6 de junho de 2007
A agonia do real
31 de maio de 2007
Sentí que la mujer se levantaba y pensé que iría por una nueva luz. Oí sus pasos cada vez más lejos. Me quedé esperando.
Pasado un rato y al ver que no volvía, me levanté yo también. Fui caminando a pasos cortos, tentaleando en la oscuridad, hasta que llegué a mi cuarto. Allí me senté en el suelo a esperar el sueño.
Dormí a pausas.
En una de esas pausas fue cuando oí el grito. Era un grito arrastrado, como el alarido de algún borracho: "¡Ay vida, no me mereces!"
Me enderecé de prisa porque casi lo oí junto a mis orejas; pudo haber sido en la calle; pero yo lo oí aquí untado a las paredes de mi cuarto. Al despertar, todo estaba en silencio; sólo el caer de la polilla y el rumor del silencio.
No, no era posible calcular la hondura del silencio que produjo aquel grito. Como si la tierra se hubiera vaciado de su aire. Ningún sonido; ni el del resuello, ni el del latir del corazón; como si se detuviera el mismo ruido de la conciencia. Y cuando terminó la pausa y volví a tranquilizarme, retornó el grito y se siguió oyendo por un largo rato: "¡Déjenme aunque sea el derecho de pataleo que tienen los ahorcados !"
[...]
23 de abril de 2007
3 de abril de 2007

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces, estendendo-me os braços, e seguros de que seria bom que eu os ouvisse. Quando me dizem: "vem por aqui"! Eu olho-os com olhos lassos, (há nos meus olhos, ironias e cansaços)
e cruzo os braços,
e nunca vou por ali...
A minha glória é esta: criar desumanidade! Não acompanhar ninguém. Que eu vivo com o mesmo sem-vontade com que rasguei o ventre a minha Mãe.
Não, não vou por aí!
Só vou por onde me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde, por que me repetis: "vem por aqui"? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, redemoinhar aos ventos, como farrapos, arrastar os pés sangrentos, a ir por aí...
Se vim ao Mundo, foi só para desflorar florestas virgens, e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós que me dareis impulsos, ferramentas e coragem para eu derrubar os meus obstáculos?... Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, e vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide!
Tendes estradas, tendes jardins, tendes canteiros, tendes pátrias, tendes tectos, e tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios. Eu tenho a minha Loucura! Levanto-a como um facho a arder na noite escura, e sinto espuma, e sangue e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam,
mais ninguém!
Todos tiveram Pai, todos tiveram Mãe; mas eu, que nunca princípio nem acabo, nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções! Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! A minha vida é um vendaval que se alevantou. É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
não sei para onde vou,
Sei que não vou por aí!
José Régio
1 de abril de 2007
Mãe
José Régio
31 de março de 2007
...
- Julguei que não vinhas...
...
- Acho que nada acontece por acaso, sabes? Que, no fundo, as coisas têm o seu plano secreto, embora nós não o entendamos. Como o de teres encontrardo aquele romance de Julian Carax no Cemitério dos Livros Esquecidos, ou o de tu e eu estarmos agora aqui, nesta casa que pertenceu aos Aldaya Tudo faz parte de qualquer coisa que não conseguimos perceber, mas que nos possui.
...
- Não me deixes cair... - murmurou.
O homem mais sábio que alguma vez conheci, Fermín Romero Torres, tinha-me explicado, numa ocasião, que não existe na vida experiência comparável com a da primeira vez que se despe uma mulher. Sábio, como era, não me tinha mentido, mas tão-pouco me contara toda a verdade. Nada me tinha dito daquele estranho tremelique das mãos que convertia cada botão, cada fecho-eclair, em tarefa de titãs. Nada me tinha dito daquele feitiço de pele pálida e trémula, daquele primeiro roçagar de lábios, nem daquela miragem que parecia arder em cada poro da pele. Nada me contara de tudo aquilo porque sabia que o milagre só sucedia uma vez, e que ao suceder, falava um língua de segredos que, mal se desvendavam, fugiam para sempre. Mil vezes quis recuperar aquela primeira tarde no casarão da Avenida Tibidabo com Bea em que o rumor da chuva arrebatou o mundo. Mil vezes quis regressar e perder-me numa recordação da qual apenas consigo recuperar uma imagem roubada ao calor das chamas. Bea, nua e reluzente de chuva, deitada junto ao fogo, aberta num olhar que me perseguiu desde então.
Inclinei-me sobre ela e percorri a pele do seu ventre com a ponta dos dedos. Bea deixou descair as pálpebras, os olhos e sorriu-me, segura e forte.
- Faz-me o que quiseres... - sussurrou.
Tinha dezassete anos e a vida nos lábios...»
[in A SOMBRA DO VENTO, de Carlos Ruiz Zafón, Publicações D. Quixote.]
Já li, e mostrou-se um livro absolutamente fantástico. Curiosamente, ligo-o à música de Mafalda Veiga, não só porque a sua leitura foi sempre, ou quase sempre, acompanhada da musicalidade de Mafalda Veiga, mas também porque há uma música, em particular, que, sempre que a ouço, me traz à memória passagens do livro, me traz à ideia a história de Daniel Sempere e Beatriz Aguilar, passando pelo Humor de Fermín Torres e a loucura apaixonada de Julian Carax. A música é a "Saltimbanco Louco".
20 de março de 2007
13 de março de 2007
Sister
Passing time with you in mind
It’s another quiet night
Feel the ground against my back
Count the stars against the black
Think about another day
Wishing I was far away
Wherever I dreamed I was
You were there with me
(Chorus)
Sister, I hear you laugh
My heart fills full up
Keep me please
Sister, when you cry
I feel your tears
Running down my face
Sister, sister, keep me
I hope you always know it’s true
I would never make it through
You could make the sun go dark
Just by walking away
Playing like we used to play
Like it would never go away
I feel you beating in my chest
I’d be dead without
(Chorus)
Sister, I hear you laugh
My heart fills full up
Keep me please
Sister, when you cry
I feel your tears
Running down my face
Sister, sister, you keep me
I hope you always know it’s true
I would never make it through
You could make the heavens fall
Just by walking away
(Chorus)
Sister, I hear you laugh
My heart fills full up
Keep me please
Sister, when you cry
I feel your tears
Running down my face
Sister, sister, you keep me
8 de março de 2007
13 de fevereiro de 2007
Todo o Mundo e Ninguém
Entra Todo o Mundo e faz que anda buscando alguma cousa que perdeu; logo após, Ninguém e diz:
Ninguém: Que andas tu i buscando?
Todo-o-mundo: Mil cousas ando a buscar: delas não posso achar, porém ando porfiando, por quão bom é perfiar.
Ninguém: Como hás nome, cavaleiro?
Todo-o-mundo: Eu hei nome Todo-o-Mundo, e meu tempo todo inteiro sempre é buscar dinheiro e sempre nisto me fundo.
Ninguém: Eu hei nome Ninguém, e busco a consciência.
[Belzebu para Dinato]
Berzebu: Esta é boa experiência! Dinato, escreve isto bem.
Dinato: Que escreverei, companheiro?
Belzebu: Que Ninguém busca consciência e Todo-o-Mundo dinheiro.
[Ninguém para Todo-o-mundo]
Ninguém: E agora, que buscas lá?
Todo-o-Mundo: Busco honra muito grande.
Ninguém: E eu virtude, que Deos mande que tope co'ela já.
[Belzebu para Dinato]
Belzebu: Outra adição nos acude: escreve logo i a fundo, que busca honra Todo-o-Mundo, e Ninguém busca virtude.
Ninguém: Buscas outro mor bem qu´esse?
Todo-o-Mundo: Busco mais quem me louvasse tudo quanto eu fezesse.
Ninguém: E eu quem me reprendesse em cada cousa que errasse.
[Belzebu para Dinato]
Belzebu: Escreve mais.
Dinato: Que tens sabido?
Belzebu: Que quer em extremo grado Todo-o-Mundo ser louvado, e Ninguém ser reprendido.
[Ninguém para Todo-o-Mundo]
Ninguém: Buscas mais, amigo meu?
Todo-o-Mundo: Busco a vida e quem ma dê.
Ninguém: A vida não sei que é, a morte conheço eu.
[Belzebu para Dinato]
Belzebu: Escreve lá outra sorte.
Dinato: Que sorte?
Belzebu: Muito garrida: Todo-o-Mundo busca a vida, e Ninguém conhece a morte.
[Todo-o-mundo para Ninguém]
Todo-o-Mundo: E mais queria o Paraíso, sem mo ninguém estrovar.
Ninguém: E eu ponho-me a pagar quanto devo pera isso.
[Belzebu para Dinato]
Belzebu: Escreve com muito aviso.
Dinato: Que escreverei?
Belzebu: Escreve que Todo-o-Mundo quer Paraíso, e Ninguém paga o que deve.
[Todo-o-Mundo para Ninguém]
Todo-o-Mundo: Folgo muito d´enganar, e mentir naceo comigo.
Ninguém: Eu sempre verdade digo, sem nunca me desviar.
[Belzebu para Dinato]
Belzebu: Ora escreve lá, compadre, não sejas tu preguiçoso!
Dinato: Quê?
Belzebu: Que Todo-o-Mundo é mentiroso, e Ninguém diz a verdade.
[Ninguém para Todo-o-Mundo]
Ninguém: Que mais buscas?
Todo-o-Mundo: Lisonjar.
Ninguém: Eu som todo desengano.
[Belzebu para Dinato]
Belzebu: Escreve, ande lá mano!
Dinato: Que me mandas assentar?
Belzebu: Põe aí mui declarado, não te fique no tinteiro: Todo-o-Mundo é lisonjeiro,
e Ninguém desenganado.
11 de fevereiro de 2007
Tudo Pequeno
Uma estátua da altura de sessenta metros parece, a seus olhos, um colosso; uma casa de cento e cinquenta, um desafio ao céu; uma torre de trezentos, um portento único; uma ponte da extensão de mil metros, uma vitória do génio humano. Uma cidade inde vivem seis ou sete milhões de homens - isto é, cem vezes mais deserta do que alguns formigueiros - faz o efeito de uma metrópole imensa; e uma população de cem milhões parece interminável. Nunca vi pobres tão extasiados diante das obras de empresários tão mesquinhos. Quando me vi pela primeira vez ao pé da Torre Eifel, não pude deixar de rir: Aquela desilegante gaiola de ferro, que parece um brinquedo de engenheiros, abandonado perto de um regato, era, realmente, a construção mais alta da Terra? É caso para ter vergonha de ser homem e de ter nascido neste século.
S. Pedro de Roma é, ao que dizem, a maior igreja do Mundo e tem, pelo menos, como vestíbulo, uma praça que podia ser o modelo reduzido de um dos meus sonhos. Mas quando se entra na nave fica-se desiludido. Isso é tudo? Em poucos passos, encontramo-nos sob a cúpula: não quero dizer que seja feia, uma vez que os especialistas a admiram, mas as dimensões são incrivelmente miseráveis. Se o Imperador do Mundo construísse um palácio real digno dele, um a cúpula como a de Miguel Ângelo poderia, quanto muito, ser a abóbada de um átrio de serviço. Quanto ao coliseu, seria, imagino, um pequeno pátio de passagem para as cozinhas.
É possível que os babilónios e os egípcios tivessem, um pouco mais do que nós, a fantasia do grandioso, embora possamos desconfiar das ruínas, que nos podem iludir. Mas os modernos - que possuem meios e mecanismos muito superiores aos antigos - deviam fazer muito mais e não escancarar a boca a vista das intenções mesqueinhas dos nossos arquitectos micrómanos.
Nenhum tem uma imaginação digna da nossa condição de monarcas do planeta. Ter-se-ia, por exemplo, de recomeçar a construção da Torre de Babel, abandonada por uma vil superstição, há milhares de anos. Um torreão de mil metros, que ultrapasse a zona das nuvens e permita contemplar inteiro todo o país a seus pés, não seria empresa impossível para os nossos construtores.
Contentam-se em admirar os navios de duzentos e trezentos metros de comprimento, que transportam, lentamente, através dos mares, alguns milhares de viventes. Mas o navio, em relação à nossa época, devia ser uma ilha autêntica, com jardins plantados em terra verdadeira, com ruas e palácios e destinada, não a andar daqui para alí, de um Continente para outro, mas a tornar possível a carreira regular entre todos os Continentes. Os paquetes de hoje nada mais são do que bacaças a vapor, que farão, dentro de um século, o mesmo efeito que nos fazem as diligências de há cem anos.
Por ora só as palsavras são de titãs, mas as nossas obras são de formigas e toupeira. Até as formigas nos podem dar lições de grandez. O Homem Moderno, apesar da sua jactância, pensa como Gulliver e não se percebe de que vive ao nível de Liliput.»




