18 de abril de 2005

Lembras-te, Pai?

Trem de ferro

Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
(trem de ferro, trem de ferro)

Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô...
(café com pão é muito bom)

Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...
(trem de ferro, trem de ferro)


Manuel Bandeira in "Estrela da Manhã" 1936

15 de abril de 2005

Belo Belo

E não fosse este um Blog dedicado, em parte, á bela poesia de Manoel Bandeira. Este, para mim, é um dos mais belos dele... Espero que apreciem, tanto quanto eu.

Belo belo belo,

Tenho tudo quanto quero.
Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo — que foi? passou — de tantas estrelas cadentes.
A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.
O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.
Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.
As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.
Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.

— Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

Manoel Bandeira.

10 de abril de 2005

Os Sapos

Fica aqui outro poema que me lembro da minha infância (também de Manoel Bandeira):

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
— "Meu pai foi à guerra!"
— "Não foi!" — "Foi!" — "Não foi!".

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: — "Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos!

O meu verso é bom
Frumento sem joio
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinqüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas . . ."

Urra o sapo-boi:
— "Meu pai foi rei" — "Foi!"
— "Não foi!" — "Foi!" — "Não foi!"

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
— "A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo."

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
— "Sei!" — "Não sabe!" — "Sabe!".

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;

Lá, fugindo ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio

Manoel Bandeira - 1918

De Volta.... se bem que só por um bocadinho.

Assuntos de ordem profissional, têm-me mantido afastado do blog. Retomarei a minha actividade, assim que possível.
Até lá.

17 de março de 2005

Pasárgada

Partilho aqui o que a ignorância e a curiosidade, mais a primeira que a segunda, me levaram hoje a esclarecer.
Na WIKIPEDIA (enciclopédia livre on-line: http://pt.wikipedia.org/) fiquei a saber que: "Pasárgada é um sítio arqueológico no actual Irão, situado 87 km a nordeste de Persépolis.
Foi a primeira capital da Pérsia Aqueménida, no tempo de Ciro, o Grande, e coexistiu com as demais, dado que era costume persa manter várias capitais em simultâneo, em função da vastidão do seu império: Persépolis, Ecbátana, Susa ou Sardes.
Alexandre Magno da Macedónia passou por aqui aquando das suas campanhas contra Dário III, em 330 a.C.."

Não conheço nem uma, nem outra, mas, sem mais, garanto que prefiro aquela aonde Manoel Bandeira é amigo do Rei.

O Bicho

"VI ONTEM um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem."

Manoel Bandeira

16 de março de 2005

A explicação do inicío.

O título (ou nome...) deste sítio surgiu da recordação de um dos vários poemas que meu pai me costumava ler em criança.
Poema que na minha juventude (re)descobri numa das deambulações pelos livros de casa. Trata-se de o início de um poema de Manoel Bandeira que agora tento, de memória, transcrever a primeira quadra:
"Vou-me embora para Pasárgada,
sou amigo do Rei
Terei a
mulher que quero
Na
cama que escolherei..."

Nunca fui um grande admirador de poesia, confesso. Descobri esse gosto depois de academicamente formado. Mas tenho como meus (perdoem-me, os autores, a impertinência) muitos desses poemas que, em criança, ouvia o meu pai ler-me.
Talvez tenha vindo daí, também, o gosto particular pela poesia de Manoel Bandeira.

15 de março de 2005

Inauguração...

Sem grande pompa ou circunstância, e sem grandes conhecimentos "destas" coisas, dou início a este meu blog. Sem qualquer ambição ou plano... simplesmente escrever sobre tudo e sobre nada, apenas para quem, sem nada melhor para fazer, me queira ler.
Declaro aberto o Blog... A todos: "seja bem vindo quem vier por bem".